Edição: nº 51 | Junho  2004   
Edição: nº 51 | Junho  2004  
 
tecnologia -
Uma questão de inteligência!

| por Lucia Helena Corrêa |

A revolução que começa a se desenhar nas corporações, levadas à lucratividade pela via da valorização do capital humano, é um milagre operado pela aplicação do conceito de Balanced Scorecard (BSC). Mas, fora de dúvida, ele somente se realiza, na prática, graças à eficiência analítica das ferramentas de Business Intelligence (BI), cujo mercado, nos últimos dois anos, experimentou crescimento entre 10 e 12%, calculam alguns dos maiores fornecedores - Cognos, Hyperion, SAS Institute e Siebel.

"Na verdade, o BSC já existia há 20 anos, mas faltava a tecnologia que pudesse democratizar o conceito, estendendo-o às diferentes unidades das corporações. As ferramentas de BI vieram resolver esse problema", opina Antonio Paulo Rihl, diretor da Hyperion na América Latina. Com base em pesquisa da AMR Resource, ele aponta um outro motor na arrancada das soluções aplicadas à análise de informações: a necessidade de adequação dos conglomerados financeiros à Lei Sarbannes-Oxley e às normas internacionais ditadas pelo Acordo Basiléia 2, que devem demandar, mundialmente, investimentos da ordem de US$ 1 bilhão.

No Brasil, sem contar a indústria de finanças, a Hyperion acaba de engordar a carteira de clientes, conquistando o Grupo Sonae. Com negócios nas áreas de varejo, shopping centers, telecomunicações e serviços, o conglomerado português decidiu adotar a solução Hyperion Financial Management para consolidar as informações financeiras nas várias unidades da holding. Em escala global, a fabricante norte-americana fatura por ano cerca de US$ 500 milhões.

Outra empresa animada com a movimentação do mercado de BI, por conta do apelo do BSC, é a canadense Cognos, que faturou US$ 600 milhões no ano passado. Dona da plataforma CPM (Corporate Performance Manager), uma solução de BI que se combina com o Cognos Metrics Manager (CMM), na carteira de clientes ela exibe, entre outras corporações globais, a Amanco, o gigante do ramo de materiais para construção. Neste cliente, o CMM monitora o desempenho das operações, nas várias unidades de negócios, por meio de indicadores. "Sem ferramentas de BI, as corporações conhecem os problemas, mas não têm como resolvê-los", argumenta Mauro Orlando, diretor da empresa para a área de serviços.

A pujança do nicho representado pelas ferramentas de BI não se revela apenas na série de depoimentos colhidos por e-Manager. Durante a Business Intelligence Conference 2004, a IDC Brasil anunciou os resultados de uma pesquisa que ouviu 1,3 mil executivos de empresas do mundo inteiro. No estudo, os entrevistados apontam quatro boas razões para investir em BI: a possibilidade de automatizar decisões de negócio; emprestar maior transparência aos processos decisórios; garantir a precisão e velocidade das decisões, com redução de custos; e avaliar, de maneira mais precisa, o grau de relevância das informações.

A realidade dos números
A maioria das empresas entrevistadas (23%) disse que, ao aderir ao BI, buscava aumentar o nível de satisfação/retenção dos clientes, enquanto outros 21% dos usuários estavam atrás de reduzir custos. O aumento da receita é a terceira razão (18%), seguida do incremento da lucratividade (16%), participação de mercado (14%) e melhoria da estratégia aplicada a produtos (12%).

Os grandes usuários das ferramentas de BI, segundo apurou a IDC, em 132 entrevistas, são os executivos da alta administração (23%), quase empatados com os da área de finanças (22%). Enquanto os profissionais de marketing (18%) e vendas (17%) vêm em terceiro e quarto lugares, seguidos dos executivos das áreas de recursos humanos (11%) e informática (9%).

Algo como 48% das médias empresas, de um total de 360, e 44% das grandes (228) consideraram "adequado" o sucesso da implantação. A qualificação "bem-sucedida" aplicou-se ao resultado dos projetos em apenas 28% das médias empresas e 24% das grandes corporações, índices que o analista Bruno Rossi, levando em conta a juventude das soluções de BI, considera muito bons.

O resultado também é positivo naquilo que ainda se considera o calcanhar-de-Aquiles dos projetos de Tecnologia de Informação: o estouro do orçamento e dos prazos. De 76 grandes empresas, 28% dizem que as previsões se confirmaram, índice que, no caso das empresas de médio porte (114), sobe para 36%. Menos de 25% das grandes e pouco mais de 20% das médias registram quebra do planejamento, em termos de prazos e orçamentos.

Quanto aos desafios, os maiores, na implantação do sistema de BI/DW, citados pelos diretores de TI, são, pela ordem, a qualidade dos dados; educação e treinamento, além das mudanças culturais. Os executivos da área de negócios, por sua vez, reclamam da falta de treinamento, qualidade dos dados e mudanças culturais. Esses, em 60% dos casos, confiam plenamente nas informações que lhes chegam, índice que recua para 48% entre os profissionais de TI.


BOX
Votorantim desata o nó social

De acordo com o mais generoso dos mandamentos cristãos - de que se deve fazer o bem sem olhar a quem e sem esperar retorno -, o Grupo Votorantim executa seu projeto social, que beneficia 28 mil empregados em 70 unidades. Com familiares e empregados contratados em regime de terceirização, a companhia jamais se preocupou em monitorar os investimentos, na maioria, feitos em atendimento a solicitações ou demandas identificadas nas áreas de saúde, qualidade de vida, educação e cultura, treinamento e especialização, controle de acidentes do trabalho e gestão dos recursos ambientais. A idéia era englobar o impacto das próprias atividades do grupo, que possui no total onze áreas de negócios.

De certo modo, a atitude se explicava. "A principal motivação dos patrocínios concedidos sempre foi, e continua sendo, o retorno em termos de imagem e, acima de tudo, o alcance social no contexto da sociedade", argumenta Daniela Reis, gerente do Instituto Votorantim, encarregada de pilotar os projetos.

Há três anos, porém, o conglomerado, do alto dos seus 85 anos, se deparou com problemas. As ações estavam se multiplicando e não atendiam aos requisitos legais que sujeitam as sociedades anônimas, inclusive no que diz respeito à qualidade dos balanços, o que levou a uma mudança de comportamento. Da velha planilha estática, segundo Daniela, incapaz de atender às necessidades em termos de planejamento e controle das operações, a Votorantim evoluiu para a solução zQuality Balanço Social.

Desenvolvido pela zQuality, integradora da plataforma Cognos Planning, que inclui ferramenta de BI (Business Intelligence), o sistema fez o que parecia impossível: uniu o útil, ou financeiramente correto, ao agradável com o gerenciamento sem burocracia, como testemunha a executiva. "Mesmo ainda sem se aplicar à coleta dos dados via Internet, por conta, exclusivamente, das características específicas de cada unidade, com o zQuality, o balanço social do Grupo Votorantim agora se consolida em apenas dois meses, quando a média anterior era de seis meses, em função da complexidade corporativa", comemora.

O conglomerado de empresas inclui o Banco Votorantim, escritórios e fábricas no Canadá e Estados Unidos, tem negócios nas áreas de produção de cimento, celulose, papel, alumínio, zinco, níquel, aços longos, filmes de polipropileno biorientado, especialidades químicas e suco de laranja. No ano passado, o faturamento anual consolidado chegou a R$ 15 bilhões, enquanto o lucro bateu na casa dos R$ 3,4 bilhões.