Sistemas obsoletos de tarifação,
inadimplência e fraude ainda preocupam as operadoras que
sofrem com o rombo em seus cofres
Em tempos de vacas magras, as fraudes
e, principalmente, o calote são um expediente comum e
assombram as operadoras de telefonia. Desde a privatização, no
final de 1998, a maioria amarga índices de inadimplência já
superiores à marca de 5%, registrada na época do sistema
Telebrás, documenta relatório recém-divulgado pela Anatel
(Agência Nacional de Telecomunicações), cujo presidente,
Renato Guerreiro, acaba de encaminhar às autoridades
fazendárias sugestão no sentido de que se reduza a carga de
impostos incidentes sobre os serviços. “Esta seria a única
forma de torná-los mais baratos e estimular os assinantes a
pagarem as contas”, argumenta Guerreiro.
Mas a evasão de receita, que também
já vai longe dos históricos 5% de antes da privatização, tem
outras fontes. Em 10% dos casos, deve-se a problemas de
natureza física – na própria rede. A causa de outros 20% são
as falhas humanas e técnicas, que acontecem no momento da
habilitação da linha e vão desde erros na fixação dos valores
a serem cobrados em função do tipo de serviço até a anotação
incorreta do endereço do assinante para posterior envio da
fatura.
Mas a principal razão da sangria é mesmo de natureza
lógica: o uso de sistemas de controle ultrapassados e
deficientes, incapazes de registrar e tarifar os serviços
efetivamente prestados, responde por 30% das perdas. É o que
constatam pesquisas realizadas pela Amdocs, autoridade em
sistemas de revenue assurance, uma das áreas que mais crescem
no mercado brasileiro de soluções para teleoperadoras,
testemunha o diretor de vendas da empresa, Ernesto Watanabe.
“O que acontece é que, forçadas a cumprir as metas de
universalização, as operadoras investiram pesado na ampliação
do número de acessos e muito pouco na modernização dos
sistemas de controle, que, deveras obsoletos, já não dão conta
da demanda”, analisa Marcelo Garcia, engenheiro de suporte de
vendas da mesma integradora.
A Amdocs dispõe de soluções que se aplicam a prevenção de
fraude e, ainda, ao controle dos serviços e sua tarifação. Na
primeira família de produtos, o campeão de vendas é o Fraude
Management System. Criado em 1997 pelo Centro de
Desenvolvimento da própria Amdocs, nos Estados Unidos, o FMS
incorpora recursos que levam em conta as fraudes mais
comumente registradas nos diversos países. No exterior, a
usuária de primeira hora é a israelense Golden Line, que
aderiu ao produto em 1998. Mas há, também, a norte-americana
SBC (South Bell Corporation) e a alemã Deustch Telekom, cujos
sistemas, isoladamente, registram mais de cem milhões de
chamadas por dia. No Brasil, a ATL (Algar Telecom Leste), que
opera a banda B de telefonia celular no Rio de Janeiro e no
Espírito Santo, é outra adepta da plataforma FMS.
A integradora oferece, ainda, a Revenue Assurance, que, a
exemplo da totalidade das soluções do tipo, não impede nem
corrige distorções, mas, como qualquer auditor, apenas
sinaliza ocorrências que podem, eventualmente, levar à perda
de receita, mantendo sob observação todos os processos que se
referem, direta ou indiretamente, a tarifação.
Watanabe e Garcia comparam a metodologia adotada pelo
Revenue Assurance com o fluxo que se verifica no controle de
qualidade na fabricação dos produtos químicos. “Na rede, é
muito comum acontecerem distorções nos pontos de conexão, por
onde acabam vazando informações importantes na hora de tarifar
os serviços. Mas, também, dentro de cada um dos módulos. O que
o sistema da Amdocs faz é checar se a informação passa,
corretamente, de um para outro.
A brasileira Promon Telecom é outra que decidiu jogar todas
as fichas nas soluções de revenue assurance, conta Roberto
Haaland, gerente da unidade criada há dois anos especialmente
para elaborar e implantar projetos nessa área. A Promon é
parceira da norte-americana Sotas, que desenvolve sistemas de
controle físico e lógico de redes de dados e ópticas. Além
disso, a consultoria orienta-se pelo resultado de pesquisas,
segundo as quais a evasão de receita, de operadora para
operadora, varia entre 5% e 12%.
“Isso é demais, considerando os recursos que a tecnologia
já oferece”, avalia Haaland. O executivo divide as causas da
sangria em três grandes grupos. No primeiro, a perda por
demanda. “Aqui nós estamos falando do churn temporário: quando
o usuário encontra dificuldade para completar uma chamada, usa
outra operadora e a primeira deixa de ganhar, o que, na
prática, é igual a perda de receita”, explica.
A segunda fonte de evasão, ele aponta, são os problemas de
sistema: o assinante consegue fazer a ligação, mas ela não é
contabilizada e não chega a ser cobrada. A terceira,
finalmente, é a fraude, que tem origem no uso de endereço
falso, centrais-fantasma, clonagem de linhas e falsificação de
cartões pré-pagos, a pedra no sapato das celulares.