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O terror da sangria de receitas

-- 1/3/2002 --

Sistemas obsoletos de tarifação, inadimplência e fraude ainda preocupam as operadoras que sofrem com o rombo em seus cofres

Em tempos de vacas magras, as fraudes e, principalmente, o calote são um expediente comum e assombram as operadoras de telefonia. Desde a privatização, no final de 1998, a maioria amarga índices de inadimplência já superiores à marca de 5%, registrada na época do sistema Telebrás, documenta relatório recém-divulgado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), cujo presidente, Renato Guerreiro, acaba de encaminhar às autoridades fazendárias sugestão no sentido de que se reduza a carga de impostos incidentes sobre os serviços. “Esta seria a única forma de torná-los mais baratos e estimular os assinantes a pagarem as contas”, argumenta Guerreiro.

Mas a evasão de receita, que também já vai longe dos históricos 5% de antes da privatização, tem outras fontes. Em 10% dos casos, deve-se a problemas de natureza física – na própria rede. A causa de outros 20% são as falhas humanas e técnicas, que acontecem no momento da habilitação da linha e vão desde erros na fixação dos valores a serem cobrados em função do tipo de serviço até a anotação incorreta do endereço do assinante para posterior envio da fatura.

Mas a principal razão da sangria é mesmo de natureza lógica: o uso de sistemas de controle ultrapassados e deficientes, incapazes de registrar e tarifar os serviços efetivamente prestados, responde por 30% das perdas. É o que constatam pesquisas realizadas pela Amdocs, autoridade em sistemas de revenue assurance, uma das áreas que mais crescem no mercado brasileiro de soluções para teleoperadoras, testemunha o diretor de vendas da empresa, Ernesto Watanabe.

“O que acontece é que, forçadas a cumprir as metas de universalização, as operadoras investiram pesado na ampliação do número de acessos e muito pouco na modernização dos sistemas de controle, que, deveras obsoletos, já não dão conta da demanda”, analisa Marcelo Garcia, engenheiro de suporte de vendas da mesma integradora.

A Amdocs dispõe de soluções que se aplicam a prevenção de fraude e, ainda, ao controle dos serviços e sua tarifação. Na primeira família de produtos, o campeão de vendas é o Fraude Management System. Criado em 1997 pelo Centro de Desenvolvimento da própria Amdocs, nos Estados Unidos, o FMS incorpora recursos que levam em conta as fraudes mais comumente registradas nos diversos países. No exterior, a usuária de primeira hora é a israelense Golden Line, que aderiu ao produto em 1998. Mas há, também, a norte-americana SBC (South Bell Corporation) e a alemã Deustch Telekom, cujos sistemas, isoladamente, registram mais de cem milhões de chamadas por dia. No Brasil, a ATL (Algar Telecom Leste), que opera a banda B de telefonia celular no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, é outra adepta da plataforma FMS.

A integradora oferece, ainda, a Revenue Assurance, que, a exemplo da totalidade das soluções do tipo, não impede nem corrige distorções, mas, como qualquer auditor, apenas sinaliza ocorrências que podem, eventualmente, levar à perda de receita, mantendo sob observação todos os processos que se referem, direta ou indiretamente, a tarifação.

Watanabe e Garcia comparam a metodologia adotada pelo Revenue Assurance com o fluxo que se verifica no controle de qualidade na fabricação dos produtos químicos. “Na rede, é muito comum acontecerem distorções nos pontos de conexão, por onde acabam vazando informações importantes na hora de tarifar os serviços. Mas, também, dentro de cada um dos módulos. O que o sistema da Amdocs faz é checar se a informação passa, corretamente, de um para outro.

A brasileira Promon Telecom é outra que decidiu jogar todas as fichas nas soluções de revenue assurance, conta Roberto Haaland, gerente da unidade criada há dois anos especialmente para elaborar e implantar projetos nessa área. A Promon é parceira da norte-americana Sotas, que desenvolve sistemas de controle físico e lógico de redes de dados e ópticas. Além disso, a consultoria orienta-se pelo resultado de pesquisas, segundo as quais a evasão de receita, de operadora para operadora, varia entre 5% e 12%.

“Isso é demais, considerando os recursos que a tecnologia já oferece”, avalia Haaland. O executivo divide as causas da sangria em três grandes grupos. No primeiro, a perda por demanda. “Aqui nós estamos falando do churn temporário: quando o usuário encontra dificuldade para completar uma chamada, usa outra operadora e a primeira deixa de ganhar, o que, na prática, é igual a perda de receita”, explica.

A segunda fonte de evasão, ele aponta, são os problemas de sistema: o assinante consegue fazer a ligação, mas ela não é contabilizada e não chega a ser cobrada. A terceira, finalmente, é a fraude, que tem origem no uso de endereço falso, centrais-fantasma, clonagem de linhas e falsificação de cartões pré-pagos, a pedra no sapato das celulares.

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